O congado e o maracatu são duas das mais tradicionais
manifestações culturais do nosso país. O
congado com ocorrência principalmente em Minas Gerais e
o maracatu com ocorrência em Pernambuco, mais precisamente
na cidade de Recife. Ambas as tradições tem várias
características em comum o que nos permite dizer que são
tradições “irmãs” apenas a muito
separadas. Listamos abaixo alguns pontos de comparação.
1 – Ambas vem da tradição de se coroar os
reis negros na irmandade de N. Sr.ª do Rosário. Essa
coroação é mantida até hoje como um
dos elementos mais importante dentro das práticas regulares
das duas tradições.
2 – Ambas tem suas maiores raízes corporais e musicais
em danças e ritmos africanos.
3 – Ambas tem como característica sonora a forte
presença de tambores graves como principal instrumento
definidor de suas frases rítmicas. O grupo de maracatu
é formado basicamente por alfaia, gonguê e tarol.
As alfaias – tambores graves – são os instrumentos
que indicam o toque e que fazem a maioria das variações
rítmicas. O grupo de congado é formado basicamente
por caixa e patangome podendo ainda vir acompanhado de viola,
sanfona, reco-reco ou campanha – no caso específico
do Moçambique. Mesmo quando um grupo possui viola ou sanfona
– com certa importância harmônica – são
sempre as caixas – tambores graves que indicam o toque e
fazem a maioria das variações rítmicas
4 – Ambas tem a presença da corte e principalmente
do rei e da rainha na coordenação geral do grupo
e na organização cotidiana dos integrantes da comunidade.
As duas manifestações são, em sua quase totalidade,
criadas a partir de comunidades matriarcais onde a figura da grande
mãe, geralmente uma das senhoras mais idosas, coordena
direta ou indiretamente o bom andamento de todas as atividades
da comunidade. São estas rainhas que dão conselhos,
ensinam, unem os indivíduos, direcionam todo o trabalho
do grupo, costuram ou supervisionam a feitura das roupas, determinam
a permanência dos integrantes, dão prestígio
à comunidade, fazem pessoalmente os contatos necessários
com outros grupos ou figuras importantes e cuidam do encaminhamento
espiritual dos indivíduos.
5 – Ambas dão atenção especial à
bandeira, considerando-a não só como marca e representação
de seu grupo mas como proteção e escudo contra qualquer
má energia ou mau olhado que possa se receber durante uma
saída.
6 – Ambas possuem cordões, quase sempre dois, de
dançarinas ou dançarinos que fazem evoluções
ao redor da percussão, ora à sua frente, ora ao
seu lado, ora atrás.
7 – O repique de ambas é senão igual, por
vezes muito próximo. Algumas células rítmicas
e modos de construção do fraseado musical são
encontrados tanto em alguns ritmos do congado como nos ritmos
do maracatu
8 – Ambas têm admiração especial por
N. Sr.ª do Rosário. No Recife, até certo tempo
atrás, toda vez que um maracatu saia, tinha por prática
passar primeiro pela igreja de N. Sra. do Rosário para
pedir bênçãos. O congado, por sua vez, é
inteiramente dedicado a N. Sra. do Rosário, cantando e
realizando suas festas, sempre que possível, dentro de
igrejas do Rosário ou em torno delas. Grande parte de suas
bandeiras, de suas canções e dos nomes das guardas
são dedicados a ela.
9 – Algumas canções, ou toadas podem ser
encontradas em ambas as tradições sendo cantadas
às vezes levemente alteradas em letras, melodias ou ritmos
mas sempre de modo a serem reconhecidas como iguais.
10 – Ambas foram formadas nas áreas que, nos séculos
XVIII e XIX, eram consideradas uma só região denominada
região do São Francisco formada pela bacia do Rio
São Francisco que incluía a província de
Pernambuco e quase toda a província de Minas Gerais.
André Salles-Coelho