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Encontro de maracatus


Os tambores rufavam, os ferros cingiam, corria noite alta do mês de Outubro. Dobrando a rua da imperatriz toda a Nação Elefante. Ia prestar louvores a Nossa Senhora do Rosário. O caminhar compassado, os pés vagarosos. O enorme pavilhão cortando caminho qual a quilha de um navio. Os reis altivos, orgulhosos de sua bela nação, os batuqueiros em marcantes toques, surdos, graves. As sacadas se enchiam das gentes. A rainha puxava a toada que não podia se fazer mais própria:

Dona Emília quando sai
O povo fica chorando ô-lê-kuê
As moças das janela
Chama as outras para vê.

Quase à beira do rio começaram a ouvir ao longe o ribombar de outro maracatu. Com um pouco mais de atenção conseguiriam ver já as fracas luzes de seus lampiões de carburetos. Os moradores, que tinham saído às vistas para a passagem do préstito, agora se deparavam com dois grandes grupos que se concorriam, um tomando o caminho o outro. Este outro, via-se agora, era o Sol Nascente que voltava das obrigações à Virgem do Rosário e já notara a presença da Nação Elefante.

Sol Nascente quando sai
Pela rua a passear
Parece a baleeira
quando vem no meio do mar

Oh, pára toda nação!
Quem vem lá!
Pára toda nação!
Quem vem lá!
Hoje só me passa
A bandeira Nacional

A rainha de Elefante, notando a provocação, vira-se de lado e dá um punhado de ordem a seu brasabundo, olha de soslaio para os batuqueiros indicando-lhes para encerrar o estrugir de seus tambores e logo puxa:

Elefante tu sois braço forte
Elefante tu sois braço forte
No sul nem no Norte
Ninguém não te dá

Se encontra com outra nação
Lindo pavilhão mas não deixo passar
Se encontra com outra nação
Lindo pavilhão mas não deixo passar

A esta altura já estavam as duas nações, uma diante da outra. Os dois embaixadores seguravam com firmeza seus grandes pavilhões. As Catirinas e toda a corte, numa meia-lua sensacional, tinha passado para trás do cortejo, deixando adiante ambos os batuques. Na frente deles só mesmo os embaixadores e seus reis e rainhas, cercados de brazabundos e porta-pálios. Do Sol Nascente se ouvia:

Eu tenho no mar eu tenho
Duas espadas de aço
Cortando todo embaraço
Pra Sol Nascente passar

E da parte do Elefante:

Lanceiro sentido
Com sua lança na mão
Levante a sua bandeira
Defenda sua nação.

De cada lado, de cada parte, cada um se incumbia de cantar e tocar mais alto. Já estavam a plenos pulmões. Os repiques cortavam de todos os lados, o baque virava e virava. O pandemônio. Já se encontravam de caras um ao outro a ainda assim mais se aproximavam. As percussões intrincavam-se. Não podiam deixar era o soropatel, seria dar de fita a vitória aos outros. As caixas seguravam bravas. O pelejar ardia. Só se ouvia o rebentar. Os reis de cada lado foram largando o canto, deixando para os tambores aquele tonitruar infernal. Os golpes cresciam, tomavam conta de toda a Boa Vista. Os moradores que assistiam foram dando ares de retirada. Sabiam que dali em diante se ouviriam mesmo eram os punhais cortando ares, couros e gentes...
Pois justo nesta mesma hora apareciam em cada canto da rua os homens de Coronel Prates, sempre requisitados pelo delegado de polícia para por fim às cambulhadas.

Deviam ser uns cinqüenta. Todos em armas. Dispostos a acabar com os dali em apenas uma saraivada. Vista e descrita a situação, os dois maracatus foram logo se arrefecendo e cada um tentando se desfazer da garbulha a sua maneira. O Sol Nascente logo entoou:

Lá vem o Sol Nascente
Passeando na cidade
Eu mandei pergunta
Quem deu a liberdade

Quem deu a liberdade
Foi nosso governador
Eu vim aqui na cidade
Vim lhe dar o louvor

O Elefante, por seu lado, tentava se justificar:

Lanceiro Novo
Somos de Minas Gerais
A licença foi tirada
Pelo Barão de Caxangá

Por mais medo ou por pensar não ter padrinhos como tinha o Elefante, foi o Sol Nascente se arretirando. Fizeram a formação de marcha e se prepararam para tomar outro rumo. Voltaram lá pros lados da ponte para tomar pro outro lado a rua da Aurora.


Os homens de Coronel Prates, vendo a choldra se espalhar, preferiram nem mexer, só botaram vigilância mais um tempo que era pra ter certeza do apaziguado. Contentes, rei e rainha, batuqueiros e catirinas do Elefante foram puxando a direção. Certos de que - com a impensada ajuda do delegado - tinham ganho o embate, seguia cantando:

Ô senhor tocador
Não me rompa as alfaias
Nação Elefante
Venceu a batalha!


Barreto de Araújo in: Breviário de Danças, Entrudos e Folguedos Nordestinos.