Na história da música mundial, a alternância
entre a busca do som limpo, regular, perfeito e controlado e a
interferência do ruído, do som irregular que foge
ao controle do músico sempre foi matéria de discussão.
A música ocidental, a música de orquestra da cultura
européia sempre teve a pureza sonora como objetivo. Já
música de raiz, de tribos indígenas, de grupos culturalmente
menos afetados pela estética européia, a música
“bárbara”, sempre permitiu a interferência
do ruído.
Como a cultura européia se impôs como formadora da
estética mundial através dos meios de comunicação,
o gosto pelo som claro e perfeito foi se transformando em objetivo
de qualquer produção sonora. Porém, podemos
ainda verificar as fortes influências do ruído em
alguns gêneros musicais.
Esse ruído pode aparecer como uma interferência sonora
sem altura definida, como acontecimentos sonoros dispersos que
fogem ao controle do realizador musical, como distorções
de um som mais puro e limpo, como distorções da
voz criando uma voz artificial quase irreconhecível.
Na história da música podemos encontrar inúmeros
exemplos de intervenções destes ruídos na
estrutura regular das práticas musicais. Um dos exemplos
mais antigos e mais evidentes é a intervenção
do ruído na produção vocal.
Na Grécia antiga, onde o poder da palavra obteve seu primeiro
e maior reconhecimento na história da civilização
antiga ocidental, a voz começou a ser tratada como meio
de comunicação de massa e precisou ser amplificada
para que a palavra do orador atingisse o maior número de
receptores.
Com o início do teatro grego, a prática da máscara
facial, o objeto que transforma o rosto das pessoas, transforma
a identificação visual, ajuda também a resolver
o problema da amplificação sonora. Os gregos perceberam
que estendendo a máscara sobre a boca de forma a criar
uma caixa de ressonância, a máscara ajudaria a amplificar
a voz e projetar o som para toda a platéia. Essa caixa
de ressonância aliada a mascara facial seria chamada de
porta-voz.
André Schaeffner em seu texto Origens Corporais, nos questiona
sobre a importância timbrística do porta-voz. O porta-voz,
para Shaeffner, não só serve para amplificar o som
como também para transformá-lo, para criar uma sonoridade
que não apenas imita o timbre da voz mais a modifica. A
voz transforma-se em instrumento. Ganha uma qualidade própria
que a diferencia da voz normal. Passa a não ser uma voz
humana. É uma voz fantástica, ou divina, ou infernal.
Essa idéia ganha força quando imaginamos que o porta-voz
era principalmente usado em encenações teatrais
onde o ator se transforma em um outro ser, humano ou divino, e
deixa sua identidade original de lado.
A partir daí, são poucos os relatos da importância
do porta-voz, vemos algumas representações iconográficas
de apresentadores de atrações circenses ou vendedores
de mercados públicos utilizando cones de materiais diversos
sobre a boca para amplificar seus discursos para grandes platéias.
A máscara, associada ao porta-voz como objeto amplificador
e transmutador da voz, praticamente desaparece.
Porém, em vários relatos de pesquisadores de maracatu
do começo do século XX existem referências
ao puxador das toadas ou o dereito utilizando uma corneta, um
cone de flanders, para amplificar a voz e permitir que esta seja
ouvida sobre o som dos tambores, portanto, um porta-voz. Nossa
primeira idéia é de que esta corneta serve apenas
para a amplificação vocal. Mas esta corneta ou porta-voz,
pode ter uma outra aplicação impensada, ao menos
conscientemente impensada dentro da estrutura do maracatu. Esta
corneta poderia servir não apenas para amplificar a voz
do cantador mas para distorcê-la. Transformar a voz em mais
um instrumento do maracatu. Tanto Guerra-Peixe em seu livro Maracatus
do Recife como Mário de Andrade em seu livro Danças
Dramáticas do Brasil denominam de buzina a corneta e indicam
que esta era a denominação corrente do instrumento.
O termo buzina já nos indica que a analogia do nome ao
instrumento estava mais ligada a sua característica de
instrumento do que de sua característica apenas de amplificação.
Schaeffner ainda nos dá outra possibilidade de comparação
quando qualifica esta prática de expressão através
do ruído de: sobre-humana, infernal, que nos faz lembrar
a descrição de Mário de Andrade diante do
maracatu Leão Coroado: “as batidas me violentaram
tão intensamente que me faltou a respiração,
eu cairia redondamente se não me afastasse com pressa do
meio do inferno.”
A idéia de transformar a voz humana numa voz sobrenatural,
infernal está presente nos dois casos, tanto no teatro
grego – e logicamente que neste de forma mais enfática
– quanto na cena do maracatu, pois é mesmo o puxador
de loas que conversa com o público através do texto
das canções.
A interferência do ruído na transformação
vocal não acontece apenas na intenção de
se transformar voz pura, humana em voz não reconhecível,
instrumental, acontece também na direção
oposta, a de se transformar o som instrumental em som humano.
R.S.Rattray nos fala de tambores ntumpané da costa do ouro
onde o tambor macho apresenta no centro de sua membrana uma pequena
peça metálica que acrescenta um timbre consonântico
aos tons das vogais e faz com que os tambores falem.
As caixas-de-guerra e os taróis do maracatu atualmente
utilizam pele de nylon industrializada e esteira de aço.
Porém, segundo depoimentos de alguns antigos caixeiros
e observando instrumentos do Maracatu Elefante que se encontram
no Museu do Homem do Nordeste – na capital pernambucana
– desde 1965, podemos constatar que pelo menos até
esta data estes instrumentos utilizavam couro no lugar das atuais
peles de nylon e uma corda de couro enrolada e esticada no lugar
da atual esteira de aço. Esta combinação
de pele de couro com uma corda de couro produz nos instrumentos
um som semelhante a um mirlitom ou a uma buzina, por vezes também
se aproximando muito de uma voz humana. Este resultado sonoro
é bem diferente do resultado conseguido com os materiais
modernos. O som da esteira como utilizada atualmente, serve mais
como um chorus, um reforço aos rufados tradicionais da
execução do instrumento. Utilizando os materiais
antigos na montagem das caixas do Maracatu Lua Nova, notamos então
que a corda esticada se prestava muito mais a criar um ruído
sonoro. Ainda existe a função da amplificação
e desdobramento quantitativo do som de caixa mas a principal característica
é a transformação do timbre natural em um
timbre novo, irreconhecível e que se aproxima por vezes
a um som animal.
Na história da música ocidental, existe uma busca
constante no sentido da supressão do ruído. Cada
vez mais são criados instrumentos que nos distanciam do
ruído sonoro ou de qualquer interferência não
controlada na produção do som.
Com os instrumentos percussivos do maracatu a história
não foi diferente. Com o passar dos anos o gosto por este
ruído foi perdendo espaço e a esteira foi cada vez
mais ganhando a função de chorus. É interessante
notar que a adoção da esteira de aço e o
desaparecimento da buzina seguiram o mesmo caminho: o de, cada
vez mais, suprimir o ruído tão utilizado do resultado
sonoro do maracatu. Algumas manifestações folclóricas
que mantiveram suas raízes mais evidentes, como o congado,
ainda utilizam a esteira de couro como acessório natural.
No congado ainda utiliza-se, por vezes, um chocalho de cascavel
dentes de cachorro ou partes da pena de galinha amarrado à
esteira para dar uma outra qualidade ao som produzido.
Alguns congadeiros, membros de diferentes irmandades, ou grupos
de congado, quando perguntados sobre a utilização
destes acessórios nas caixas respondem sempre que se trata
de um recurso para produzir “um chiado”.
Ironicamente o rock – gênero musical que mais se aproveitou
dos meios de comunicação em massa, este por sua
vez grande responsável pela busca atual do som puro –
é também o gênero musical que mais realiza
experimentações com o objetivo de inserir ruído
a sua estrutura musical. Desde as distorções dos
pedais de guitarra às vozes distorcidas naturalmente ou
através de aparelhos, o rock trata o ruído como
parte formadora de sua personalidade. Os sons diferentes, não
reconhecíveis estão por todo seu repertório.
Durante os anos setenta – época de grandes experimentalismo
– até instrumentos que só se prestavam a produzir
ruído foram especialmente criados para se incorporarem
ao jogo de instrumentos de importantes bandas. As pesquisas de
música eletrônica e eletroacústica impulsionadas
no campo erudito por Stockhauser foram imediatamente aceitas pelo
rock. Talvez seja o rock o único gênero dependente
dos meios de comunicação em massa que se utiliza
com grande freqüência e propriedade da produção
de ruído.
Coincidentemente o rock é também associado a música
infernal, não humana e demoníaca. Como no teatro
grego o “orador” de uma banda de rock ou o “band
leader” toma para si uma figura não humana de liderança
assumindo ares divinos, demoníacos e proféticos.
No que podemos chamar de história musical do ruído,
este sempre foi associado ao sobre-natural, ao divino, ao infernal,
ao extra-terrestre e extra humano. Talvez o homem tenha em sua
história procurado o ruído justamente pelo ruído
adicionar ao ser que o produz estas características mágicas.
Seguindo o caminho inverso da busca pelo ruído, podemos
ainda observar as mudanças acontecidas dentro de uma escola
de samba. As escolas de samba se transformaram em um evento extremamente
rentável e visível. Estes dois pontos forçaram
transformações importantes na produção
sonora de uma escola. Começou-se a buscar uma clareza de
som e uma eficiência na transmissão sonora nunca
antes requisitada. Com isto as escolas abandonaram tudo o que
podia ser considerado ruído e toda a possibilidade de se
submeterem às instabilidades do tempo. O caminho natural
então foi a adoção quase total de peles de
nylon ao invés das tradicionais peles de couro.
Com novas peles, temos um resultado sonoro muito diferente do
resultado sonoro original das antigas escolas de samba. As diferenças
causadas pelas peles sintéticas são grandes. A primeira
é obviamente sonora, o timbre muda muito. A intensidade
sonora também aumenta o que deixa uma única solução
para a situação geral das peles: é difícil
utilizar uma formação mista de peles naturais e
artificiais, o caminho adotado então é a substituição
total das peles naturais por artificiais. Atualmente apenas algumas
escolas utilizam pele natural apenas nos surdos. O andamento geral
também é afetado, peles artificiais têm mais
resposta à baqueta, portanto tem mais rebote, o que aumenta
a velocidade e a facilidade de execução. Sendo assim
o instrumentista, muitas vezes sem perceber, acelera o andamento
de todo o conjunto pois fisicamente se vê em condições
de fazê-lo.
Quando se pensa na praticidade da pele de nylon – a afinação
constante, a maior durabilidade, a facilidade de reposição
e a estabilidade frente a mudanças de umidade e temperatura
– com certeza a adoção destas foi um grande
avanço, mas quando pensamos que a prática e a vivência
do ruído sonoro se perde rapidamente com a inclusão
destes novos materiais, notamos a perda irreparável que
estes trazem para a sonoridade geral de nossas manifestações
culturais.
André Salles-Coelho