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:. O Rei do Congo .:

“...Era mesmo uma senhora de grande influência, tanto entre todos os forros daquele lado da cidade quanto entre os que conheceu no cativeiro. Não havia discussão que ela não acalmasse, briga que não separasse e até insurreição que não apaziguasse. Também era por esses tempos já bem conhecida do Governador Geral. Esse tinha lhe posto a confiança quando seu primogênito atravessou na barriga da mãe. Mandou depressa chamar a negra, a parteira mais famosa da cidade. Veio correndo. Conseguiu salvar a vida do menino e deixar a mãe em bom estado. Do padre também era digna de respeito. A paróquia de N. Sra. do Rosário devia grande parte de seus fiéis àquela senhora.
Foi então acordado o pedido dos negros. O governador autorizaria o acontecimento com o aval do chefe de polícia e ainda de seu antigo senhor. O padre por sua vez faria a cerimônia. Pois só faltava aos negros preparar os festejos...”

Barreto de Araújo in: Breviário de danças, entrudos e folguedos nordestinos.


A coroação do rei do congo – de onde se originou tanto o congado quanto o maracatu - é uma manifestação cultural brasileira que vem da tradição de se coroar reis negros na irmandade de N. Sra. do Rosário.

Com a chegada dos primeiros escravos ao Brasil, cada comunidade negra agrupada em torno de um senhor, uma fazenda, uma atividade produtiva ou uma região, começa a ter por prática indicar indivíduos para serem destacados como seus legítimos líderes e nomeados reis. Estas pessoas eram geralmente escolhidas entre as de maior idade, de maior liderança natural, hábeis interlocutores entre negros e seus senhores e indivíduos que já tinham pertencido a uma classe nobre e dominante nas tribos africanas. Com o tempo notou-se que esta prática trazia vantagens para vários segmentos da sociedade escravista da época.

A vantagem da liderança monárquica para a classe dominante - senhores de escravos, governantes e chefias de polícia - era que, com a possibilidade de um diálogo mais próximo, conduzido justamente através desses reis, podia-se manter a ordem e a disciplina da população escrava.

A igreja também se beneficiava da figura real: a catequização e a conversão dos negros se tornava mais fácil a partir da conversão de seus reis. Bastava para isso a igreja reconhecer e aceitar o monarca negro. E a irmandade de N. Sra. do Rosário tinha justamente esta finalidade.

Os negros, por sua vez, também tiravam vantagens desta prática. Ao sincretizarem seus orixás aos santos católicos poderiam louvar seus próprios deuses e seus líderes mais representativos através de uma aparente festa sacra dentro dos moldes cristãos.

A coroação de reis negros foi então um velado e bem sucedido acordo entre escravos e seus senhores onde os primeiros manteriam suas tradições e os segundos, seus lucros.

 

 

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